Assim caminha a humanidade?

A humanidade percorreu um longo caminho para que a ideia fundamental dos Direitos Humanos, a ideia de que devem ser assegurados ao homem (isto é, a todo ser humano, seja ele mulher, criança, idoso, negro, índio, homossexual, portador de deficiência, etc.) o direito à vida, à saúde, à educação, ao lazer, ao esporte, ao trabalho, a expressar sua opinião, a lutar para que esses direitos lhes sejam garantidos, a um meio ambiente saudável, sustentável e comum a todos, se tornasse uma ideia majoritária, quase hegemônica e natural em nossa civilização. Aqueles que negassem tais direitos sofriam uma sanção espontânea da sociedade. Assim, normalmente, a negação dos direitos dava-se de forma velada. No Brasil era muitas vezes manifestado, em tom de brincadeira, piadas envolvendo negros, gays, pobres, nordestinos ou portadores de alguma deficiência, em atitudes que humilhavam, mas de forma sutil, quase “natural”, sem querer dizer o que realmente se queria dizer.

Historicamente, em nosso país, a ideia de Direitos Humanos é algo novo, muito recente. Desde o descobrimento que convivemos com a negação de direitos, primeiramente aos índios, depois aos negros trazidos como escravos. A nossa sociedade, escravocrata, patrimonialista, coronelista, patriarcal resistiu, de todas as formas e maneiras, em transformar sua cultura e seus costumes. A muito custo, fruto de muitas lutas e muitas mortes, foi-se conquistando alguns direitos civis, sociais e trabalhistas. Um processo que foi abortado com o golpe e instauração da Ditadura Militar. A partir daí, o que vimos foi muitos dos direitos – conquistados a duras penas – vilipendiados. Uma onda de horror, mortes e  tortura tomou conta do país por 21 anos. A Constituição de 1988 significou a retomada da cidadania, da democracia, com os direitos fundamentais da pessoa humana gravados em suas páginas. Passamos a viver um clima político favorável à classe trabalhadora e aos excluídos e marginalizados para lutar pela consolidação e ampliação de seus direitos. Porém, esta luta nunca foi uma tarefa fácil, simplesmente porque não houve uma verdadeira ruptura com o passado, com as forças retrógradas e a classe social burguesa que praticaram o golpe e implantaram o regime ditatorial no país. Não houve um “ajuste de contas”, o Brasil não foi passado a limpo, os torturadores não foram julgados, optando-se pela saída da conciliação e de uma anistia geral e irrestrita, o que possibilitou a estes mesmos conspiradores, traidores do povo brasileiro, permanecerem na vida pública e política, disputando eleições e financiando a eleição de políticos com o dinheiro de empresas e do grande capital nacional e estrangeiro, possibilitando a eles, uma vez eleitos, a proposição de emendas que foram alterando a Constituição, modificando-a em favor de seus interesses.

Ainda assim e apesar de tudo, elegemos um presidente operário e a primeira mulher presidenta deste país, que garantiram, aos excluídos e marginalizados, as condições para uma melhora significativa em suas vidas, com dignidade e oportunidades de educação, lazer e trabalho, ascensão social. Contudo, tal como no período pós-ditatorial, em nome de uma governabilidade, optou-se pela conciliação de classes, cedendo espaço aos nossos algozes, praticamente convidando golpistas e conspiradores para sentarem à mesa conosco, enquanto na antessala tramavam contra o povo. Por isso, estamos pagando um preço caro, que poderá culminar no impedimento da presidenta Dilma, na usurpação da presidência legitimamente eleita por mais de 54 milhões de votos.

É neste contexto que vemos crescer, ao longo dos anos, tal qual um câncer maligno e fulminante, inicialmente de modo velado, tímido, escondido, depois de forma desavergonhada, em plena luz do dia, nas redes sociais, os ataques contra mendigos, índios, negros, nordestinos, beneficiários do Bolsa Família, ao próprio ex-presidente Lula, a presidenta Dilma e ao Partido dos Trabalhadores. Ninguém fazia nada, dizia nada. A Justiça não se manifestava. Hoje, estão todos à vontade, mostram seus rostos, xingando, expondo seus preconceitos, suas raivas, seus ódios e intolerâncias. Um deputado, militar, legítimo herdeiro da ditadura,  julga-se, de forma muito natural, no direito de dizer que não estuprava a uma deputada, ex-ministra dos Direitos Humanos, porque ela não merecia. Este mesmo deputado, durante seu voto no processo de admissibilidade do impeachment pela Câmara dos Deputados, fez  apologia a tortura, homenageou notório torturador, responsável por inúmeras mortes e pelas maiores atrocidades durante o período ditatorial, algoz da presidenta Dilma. O pior é que após sua fala, a página do facebook deste torturador recebeu mais de 13 mil curtidas, numa demonstração de apoio ao mesmo. Onde iremos chegar? Estará a humanidade percorrendo o caminho inverso, de negação dos direitos? É este o recado que recebemos do que está acontecendo no Brasil e no resto do mundo, em especial no que diz respeito aos  milhões de refugiados que estão sofrendo, confinados nas fronteiras dos países que se negam a lhes dá abrigo?

No caminho com Maiakovski

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Eduardo Alves da Costa

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Bretch

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