Como o golpe atinge a população negra?

Como o golpe atinge a população negra?

por Mariana Lopes

Ir à Brasília, estar com pessoas de todos os cantos do Brasil, e, finalmente, ver a Esquerda, quase em sua totalidade, unida, me trouxe a certeza de estar do lado certo, sofrido, mas certo. Caminhar por um objetivo, um sonho; muitas vozes e um só grito: “Não vai ter golpe; vai ter luta!”

A força da militância está na luta cotidiana como também nas adversidades enfrentadas em momentos de grandes decisões. Sem dinheiro, com a alma e um colchão na mão, fomos para as trincheiras da Esplanada lutar pela democracia do nosso país, ameaçada por um golpe de estado, orquestrado por um congresso fascista, racista, machista e homofóbico. Lá, acampados como uma grande família, trocamos olhares, gestos, alimentos, água e muita energia… companheiras e companheiros, a nossa união é a nossa força!

Aguardamos a votação de aprovação do processo de impeachment, sentados e deitados em frente aos ministérios. Aquele chão nos pertencia ainda mais naquele dia. Era latente o desejo de uma vitória da Esquerda, daqueles que de fato pensam o Brasil pela via do social. Nas ruas vimos não só a militância orgânica dos partidos, mas toda uma população ávida por justiça social. A população negra, indígena, LGBT, operária, doméstica etc. também se fez presente em Brasília. Com isso, percebemos o quanto há de pluralidade e diversidade de pessoas e pensamentos dentro do próprio Partido do Trabalhadores (PT), como em outros movimentos, coletivos e partidos de Esquerda.

Apesar de todo sentimento de orgulho que me invadiu por fazer parte daquele momento histórico, com aquelas pessoas, com o meu grupo, uma questão ainda pulsava: como fica a questão racial nesse mundo polarizado que vivemos hoje? Afinal, com golpe ou não, continuamos pretos.

A palavra Democracia, assim como Estado Democrático de Direito, foi utilizada exaustivamente nos últimos tempos, durante as manifestações, para se tentar combater o golpe disfarçado de Impeachment. No entanto, após os acontecimentos de 17 de abril de 2016, vimos que sua legitimidade está fragilizada e ameaçada. Sabemos que de fato o Estado Democrático de Direito não chegou às favelas e periferias brasileiras, visto que são alarmantes os índices de mortes diárias de pretos e pobres nas cidades, principalmente de jovens. Como vimos recentemente no caso de Luana Barbosa, mulher negra e lésbica, que faleceu após ser espancada por policiais militares, na periferia de Ribeirão Preto-SP. Diariamente, a história se repete, são muitos Amarildo, Cláudia Ferreira, Rafael Braga… e o genocídio do povo preto é provido pelo Estado.

Mesmo depois de três mandatos de um governo progressista e de esquerda, a população negra ainda é a mais marginalizada; a juventude negra a que mais morre; os empregos subalternos ainda são destinados a nós; nossa saúde, bem-estar, segurança e educação continuam negligenciados. Números apontam que a violência contra as mulheres brancas diminuiu cerca de 11,9%, enquanto contra as mulheres negras houve uma crescente de 19,5%, de acordo com o Mapa da Violência de 2015. A violência obstétrica também faz parte do cotidiano de negras ao darem à luz; do pré-natal ao parto sofrem com o descaso médico, recebem menos anestesia e demoram mais para serem atendidas.

No entanto, mesmo considerando algumas contradições que se apresentam nesse atual governo, inegavelmente, os últimos anos possibilitaram uma mudança real na vida de negras e negros. Contudo, o ingresso nas universidades e a melhoria na qualidade de vida dessa parcela da população, ainda que de maneira singela, não ocorreram por bondade ou caridade de uma política de governo, mas sim pela luta de negras e negros dentro da militância política.

Não somos tolos de acreditar que a esquerda branca nos dará espaço e retrocederá em seus privilégios, portanto, as conquistas da população negra são e serão frutos de muita luta. O contrassenso é evidente, porém, não podemos deslegitimar os movimentos de esquerda, que sim, são majoritariamente brancos, mas ainda sim são os que podem possibilitar as transformações sociais que almejamos.

Nesse momento de instabilidade política, remetemo-nos à nossa memória histórica dos períodos ditatoriais no país e vemos que nesse período mais uma vez fica evidente a invisibilidade projetada à população negra. Temos grandes referências negras na luta pela democracia, como por exemplo, Osvaldão, guerrilheiro do Araguaia; Carlos Marighella, que era filho de um imigrante italiano com uma negra descendente de escravos; Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo; Alceri Maria Gomes da Silva; dentre outros.

Durante o governo Médici, em 1969, houve a proibição de se noticiar temas sobre índios, esquadrão da morte, guerrilha, movimento negro e discriminação racial. O governo brasileiro estava assistindo a luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, com figuras e movimentos de referência como Martin Luther King, Malcon X e o Partido Panteras Negras, e o receio de que essa “onda negra revolucionária” eclodisse no Brasil motivou, por exemplo, a repressão ao movimento Soul no país, que tinha como objetivo a valorização da cultura negra; documentos citam a constante vigília a esses movimentos.

De acordo com Nelma Monteiro:

“Os Movimentos Negros das décadas de 1970 e 1980, ao colocarem em suas agendas as denúncias de racismo institucional, de racismo à moda brasileira e da farsa da democracia racial, demarcaram um campo de força política imprescindível na conquista por direitos civis, políticos e materiais. Apesar do período de repressão militar, surgiu em São Paulo o Movimento Negro Unificado (MNU) contra o Racismo – uma reação à ideologia dos militares que apregoavam e sustentavam a existência da democracia racial no Brasil.

No final da década de 1980, foi inequívoco o avanço dos Movimentos Negros em seu projeto político de denúncias de racismo institucional. É preciso lembrar a inegável contribuição desses segmentos que, com suas diferentes correntes e tendências, vêm contribuindo na construção de políticas afirmativas de valorização da população negra.”

Quando se fala dos que lutaram contra a Ditadura Militar, geralmente, são lembrados somente os jovens estudantes brancos; apagou-se da história a militância de negras e negros durante esse período. Fomos sim parte importante dessa história, mas o racismo não nos constrói como heróis e protagonistas. Os estudantes universitários, em sua maioria universitários, em sua maioria brancos, foram considerados presos políticos, enquanto os jovens negros foram enquadrados como presos comuns. Quem acredita que aquele “pretinho ou pretinha” estaria lutando pela democracia do país? Enfim, em sua maioria, foram enquadrados em crimes como furto e tráfico de drogas.

Nesses últimos 13 anos, o governo errou em alguns campos cruciais, um deles foi a não democratização da mídia. A mídia brasileira pode ser considerada o “quarto poder”, pois ela dita as regras de comportamento da sociedade e manipula fatos de acordo com os interesses do grupo a que pertence ou quer beneficiar. Jogo de interesses! Vemos diariamente o espetáculo midiático das emissoras de televisão, sensacionalistas, protecionistas, capitalistas e elitistas. Para a população negra a mídia nunca foi cordial; nossa imagem sempre foi estereotipada, perpetuando estigmas através de personagens hiperssexualizadas para as mulheres negras, ou como empregadas domésticas, alcoólatras, bandidos, motoristas. Os meios de comunicação sempre se utilizaram do racismo para esfacelar a autoestima e a identidade do povo negro.

Nos mesmos tempos áureos da Ditadura, em 1969, estreou na TV Globo a telenovela A Cabana do Pai Tomás. Na trama, Pai Tomás (Sérgio Cardoso) e Cloé (Ruth de Souza) lideravam a luta negra pela liberdade no sistema escravocrata estadunidense. Para se passar por negro, o ator pintava o rosto e o corpo de preto, prática chamada de blackface. Hoje, essa prática não é mais comum na televisão, no entanto, negro e negras continuam atuando em papéis pré-definidos por um imaginário racista, como os já mencionados. De acordo com o libro “Memória da Telenovela Brasileira”, de Ismael Fernandes, de 1963 (ano da primeira novela exibida no Brasil) a 1998, cerca de 520 novelas foram ao ar; apenas 200 delas (ou 38,4%) contavam com atrizes e atores negros.

Dessa forma, não é surpreendente a criminalização dos movimentos estudantis, sindicais e de partidos pelos meios de comunicação. As ações truculentas da polícia militar nas manifestações ocorrem da mesma forma nas favelas e periferias; ser suspeito é o imaginário majoritário destinado aos negros e negras. Sendo assim, após evidenciar o apagamento da população negra da história, da sociedade, da política e do fomento de políticas públicas, é gritante a urgência em fortalecer o protagonismo negro na luta contra o Golpe, pois, sem dúvida alguma, seremos os mais atingidos com esse tal maniqueísmo político que surge. Nessa queda de braços entre as forças que puxam mais para a Direita ou para a Esquerda já escolhemos o nosso lado, agora devemos nos colocar à frente dos debates, dos partidos, dos movimentos, dos coletivos, das luzes, dos palcos, das ruas… da luta!

  • Mariana Lopes, Graduada em Direito, Diretora de Combate ao Racismo da UEE/RJ, militante do Enegrecer.
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