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Ipea: mortes por acidentes de transporte terrestre no Brasil

Texto para discussão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresenta uma caracterização geral das mortes por acidente de transporte terrestre (ATTs) no Brasil.

De acordo com o estudo, mortes causadas por ATTs estão em nono lugar no ranking geral das principais causas de morte no Brasil, e em segundo lugar no ranking das causas externas, perdendo apenas para as mortes em consequência de agressões diversas.

Em 2013 ocorreram 42.266 mortes em ATTs no Brasil, sendo que há tendência de crescimento nos valores absolutos das ocorrências de mortes quando se observam as evidências de longo prazo (gráfico abaixo). No curto prazo, entre 2012 e 2013, houve queda.

Brasil: evolução do número absoluto de óbitos por ATT e da taxa de mortalidade por 100mil habitantes (1996 – 2013)

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Como pode ser percebido pelo gráfico, sempre após a implementação de legislação de trânsito mais rígida, como o novo Código de Trânsito Brasileiro, em 1998, e a nova lei de consumo zero de álcool de 2008, chamada popularmente de Lei Seca, há queda nas ocorrências de mortes, mas posteriormente retornam tendências anteriores de crescimento.

Os dados mostram que cerca de 70% das mortes ocorrem nas faixas entre 15 e 49 anos e que somente cerca de 20% das vítimas fatais de ATT são mulheres, sendo que a maior proporção desse gênero se encontra nas vítimas de acidentes de ônibus.

Fonte: Fundação Perseu Abramo – Notas FPA – Boletim de Política Social – Ano 4 – nº 340 – 12 de agosto de 2016

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Escola sem partido?

FREI BETTO*

Nada mais tendencioso do que o Movimento Escola Sem Partido. Basta dizer que um de seus propagadores é o ator de filmes pornô Alexandre Frota. O movimento acusa as escolas de abrir espaços a professores esquerdistas que doutrinam ideologicamente os alunos.

Uma das falácias da direita é professar a ideologia de que ela não tem ideologia. E a de seus opositores deve ser rechaçada. O que é ideologia? É o óculos que temos atrás dos olhos. Ao encarar a realidade, não vejo meus próprios óculos, mas são eles que me permitem enxergá-la. A ideologia é esse conjunto de ideias incutidas em nossa cabeça e que fundamentam nossos valores e motivam nossas atitudes.

Essas ideias não caem do céu. Derivam do contexto social e histórico no qual se vive. Esse contexto é forjado por tradições, valores familiares, princípios religiosos, meios de comunicação e cultura vigente.

Não há ninguém sem ideologia. Há quem se julgue como tal, assim como Eduardo Cunha se considera acima de qualquer suspeita. Como ninguém é juiz de si mesmo, até a minha avó de 102 anos tem ideologia. Basta perguntar-lhe o que acha da vida, da globalização, dos escravos, dos homossexuais etc. A resposta será a ideologia que rege sua visão de mundo.

A proposta da Escola Sem Partido é impedir que os professores eduquem seus alunos com consciência crítica. É trocar Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Rubem Alves por Cesare Lombroso e Ugo Cerletto.

Ninguém defende uma escola partidária na qual, por exemplo, todos os professores comprovem ser simpatizantes ou filiados ao PT. Mesmo nessa hipótese haveria pluralidade, já que o PT é um saco de tendências ideológicas que reúne ardorosos defensores do agronegócio e esquerdistas que propõem a estatização de todas as instituições da sociedade.

Não faz sentido a escola se aliar a um partido político. Muito menos fingir que não existe disputa partidária, um dos pilares da democracia.

Em outubro, teremos eleições municipais. Deve a escola ignorá-las ou convidar representantes e candidatos de diferentes partidos para debater com os alunos? O que é mais educativo? Formar jovens alheios à política ou comprometidos com as lutas sociais por um mundo melhor?

Na verdade, muitos “sem partido” são partidários de ensinar que nascemos todos de Adão e Eva; homossexualidade é doença e pecado (e tem cura!); identidades de gênero é teoria promíscua; e o capitalismo é o melhor dos mundos.

Enfim, é a velha artimanha da direita: já que não convém mudar a realidade, pode-se acobertá-la com palavras. E que não se saiba que desigualdade social decorre da opressão sistêmica; a riqueza, do empobrecimento alheio; a homofobia, do machismo exacerbado; a leitura fundamentalista da Bíblia da miopia que lê o texto fora do contexto.

Recomenda-se aos professores de português e literatura da Escola Sem Partido omitirem que Adolfo Caminha publicou, em 1985, no Brasil, Bom crioulo, o primeiro romance gay da história da literatura ocidental; proibirem a leitura dos contos D. Benedita e Pílades e Orestes, de Machado de Assis; e evitar qualquer debate sobre os personagens de Dom Casmurro, pois alguns alunos podem deduzir que Bentinho estava mais apaixonado por Escobar do que por Capitu.

* FREI BETTO é escritor, autor do romance policial Hotel Brasil (Rocco), entre outros livros. Publicado em O Globo, disponível em http://oglobo.globo.com/sociedade/escola-sem-partido-19706491

Assim caminha a humanidade?

A humanidade percorreu um longo caminho para que a ideia fundamental dos Direitos Humanos, a ideia de que devem ser assegurados ao homem (isto é, a todo ser humano, seja ele mulher, criança, idoso, negro, índio, homossexual, portador de deficiência, etc.) o direito à vida, à saúde, à educação, ao lazer, ao esporte, ao trabalho, a expressar sua opinião, a lutar para que esses direitos lhes sejam garantidos, a um meio ambiente saudável, sustentável e comum a todos, se tornasse uma ideia majoritária, quase hegemônica e natural em nossa civilização. Aqueles que negassem tais direitos sofriam uma sanção espontânea da sociedade. Assim, normalmente, a negação dos direitos dava-se de forma velada. No Brasil era muitas vezes manifestado, em tom de brincadeira, piadas envolvendo negros, gays, pobres, nordestinos ou portadores de alguma deficiência, em atitudes que humilhavam, mas de forma sutil, quase “natural”, sem querer dizer o que realmente se queria dizer.

Historicamente, em nosso país, a ideia de Direitos Humanos é algo novo, muito recente. Desde o descobrimento que convivemos com a negação de direitos, primeiramente aos índios, depois aos negros trazidos como escravos. A nossa sociedade, escravocrata, patrimonialista, coronelista, patriarcal resistiu, de todas as formas e maneiras, em transformar sua cultura e seus costumes. A muito custo, fruto de muitas lutas e muitas mortes, foi-se conquistando alguns direitos civis, sociais e trabalhistas. Um processo que foi abortado com o golpe e instauração da Ditadura Militar. A partir daí, o que vimos foi muitos dos direitos – conquistados a duras penas – vilipendiados. Uma onda de horror, mortes e  tortura tomou conta do país por 21 anos. A Constituição de 1988 significou a retomada da cidadania, da democracia, com os direitos fundamentais da pessoa humana gravados em suas páginas. Passamos a viver um clima político favorável à classe trabalhadora e aos excluídos e marginalizados para lutar pela consolidação e ampliação de seus direitos. Porém, esta luta nunca foi uma tarefa fácil, simplesmente porque não houve uma verdadeira ruptura com o passado, com as forças retrógradas e a classe social burguesa que praticaram o golpe e implantaram o regime ditatorial no país. Não houve um “ajuste de contas”, o Brasil não foi passado a limpo, os torturadores não foram julgados, optando-se pela saída da conciliação e de uma anistia geral e irrestrita, o que possibilitou a estes mesmos conspiradores, traidores do povo brasileiro, permanecerem na vida pública e política, disputando eleições e financiando a eleição de políticos com o dinheiro de empresas e do grande capital nacional e estrangeiro, possibilitando a eles, uma vez eleitos, a proposição de emendas que foram alterando a Constituição, modificando-a em favor de seus interesses.

Ainda assim e apesar de tudo, elegemos um presidente operário e a primeira mulher presidenta deste país, que garantiram, aos excluídos e marginalizados, as condições para uma melhora significativa em suas vidas, com dignidade e oportunidades de educação, lazer e trabalho, ascensão social. Contudo, tal como no período pós-ditatorial, em nome de uma governabilidade, optou-se pela conciliação de classes, cedendo espaço aos nossos algozes, praticamente convidando golpistas e conspiradores para sentarem à mesa conosco, enquanto na antessala tramavam contra o povo. Por isso, estamos pagando um preço caro, que poderá culminar no impedimento da presidenta Dilma, na usurpação da presidência legitimamente eleita por mais de 54 milhões de votos.

É neste contexto que vemos crescer, ao longo dos anos, tal qual um câncer maligno e fulminante, inicialmente de modo velado, tímido, escondido, depois de forma desavergonhada, em plena luz do dia, nas redes sociais, os ataques contra mendigos, índios, negros, nordestinos, beneficiários do Bolsa Família, ao próprio ex-presidente Lula, a presidenta Dilma e ao Partido dos Trabalhadores. Ninguém fazia nada, dizia nada. A Justiça não se manifestava. Hoje, estão todos à vontade, mostram seus rostos, xingando, expondo seus preconceitos, suas raivas, seus ódios e intolerâncias. Um deputado, militar, legítimo herdeiro da ditadura,  julga-se, de forma muito natural, no direito de dizer que não estuprava a uma deputada, ex-ministra dos Direitos Humanos, porque ela não merecia. Este mesmo deputado, durante seu voto no processo de admissibilidade do impeachment pela Câmara dos Deputados, fez  apologia a tortura, homenageou notório torturador, responsável por inúmeras mortes e pelas maiores atrocidades durante o período ditatorial, algoz da presidenta Dilma. O pior é que após sua fala, a página do facebook deste torturador recebeu mais de 13 mil curtidas, numa demonstração de apoio ao mesmo. Onde iremos chegar? Estará a humanidade percorrendo o caminho inverso, de negação dos direitos? É este o recado que recebemos do que está acontecendo no Brasil e no resto do mundo, em especial no que diz respeito aos  milhões de refugiados que estão sofrendo, confinados nas fronteiras dos países que se negam a lhes dá abrigo?

No caminho com Maiakovski

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Eduardo Alves da Costa

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Bretch